terça-feira, 3 de junho de 2008

"Projecto de Sucessão" *

*
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se um copo de oiro e sonharem-se índias.
in p o e s i a,
António Maria Lisboa.
*
*ou O mapa.


6 comentários:

A.S. disse...

Espanta-me sobretudo a idade que todos eles tinham. E que poucos tenham conseguido ver o que conseguiram fazer. Por muitos de nós que hoje temos a idade deles.

Sónia Balacó disse...

Que não nos estamos a cumprir.

PTiago disse...

Hoje comi panados com arroz e tavam bons...

nham nham....

rednosedraindeer disse...

Então não estamos a cumprir? Estamos sim. Há que dar tempo para as coisas amadurecerem.

Em relação ao poema, o António Maria Lisboa é do caralho, isn't he?

Paulo Barros Cardoso - P.B.C. disse...

Na minha estupidocultura, ou falta dela; só me ocorre sorrir,mttt...

linfoma_a-escrota disse...

xéxé gostou, receberás o teu convite em breve, muita ferve

É nessas alturas que perfilo hologramas
interiorizando toda a magnificiência de
permeio calibre, como cera extroVertida
acrescentamo-nos aos electrões visíveis
pouco preocupados com dietas empinadas,
esbrachejam pelo assalto à memóriarreia
seleccionadora da imaginação a esquecer.

Mais importante que minha morte é
amamentar líbidos intelectuais a serem-
-vivos, pois nem uniformes nem rugas
têm direito de ameaçar empolgamentos
instântaneos por mexer em vidros embaciados,
uma migalhinha de 2c-B faria abrir teu troar
amarrado aos decertos riscos do mau-senso.

Talvez terror às vezes demais para neuróticos
que nunca enfrentaram prendas com pesadelos,
não entrem em iletracia porque vai passar e
custar a adormecer para depois alterares o
que viste cego, cerziu-se cupidamente, sem
arado ceifaste contendas galáctias no anelar e a
mobília aparenta agora estar confusa, cansada
do som cerebral amordaçado ao corpo aflito e
abraçado à sala-de-convívio-no-ar-livre-purificado,
arranhado-rectângulo, se insististe em pensar nisso.

Sou alguém sem nome, irreconhecível finalmente,
desprendido dos lamirés de latoeiros em estendal
sujeitados a rastrear máscaras demonstrativas de
impulsos nas comédias de reforço que padecemos,
ante o imperialismo esteróide, matamo-nos e
ressuscitamos condecorados de dançarinos mortos,
mas bravos, insignificantes asteróides neo-junkies.

Seja coberto de pulmicort, lama, sabão ou amaciAdor
aceito descobrir pelo método metafísico a euforia
que flutua em ângulos redondos, sem relógio
nem impostos, ai como vos adoro contemplar
displicentes estopinhas, fariseus das flores não
colhidas, vocês suportam acontecer e penhorar,
susceptíveis a contradizeres que confragem
os ensejos por doçuras em surdina e sem crédito,
nada é obrigatório mas vais sentindo os trejeitos.

À margem da alvenaria mastigamos vãs vagens
provenientes da loucura não tendenciada a seguir,
é sua propriedade ser influenciada pelo pingar do
algeroz que funciona como farol e massaja a nuca,
é ser adobe que não afunda, boiando pelas paisagens
até às 7maravilhas que cantam, englobam e aquecem
mãos laser de plenitude bertacarbolina, parece não
ter consistência porque vive do oxigénio que nos
atravessa e aponta para o fio invísivel que seremos.



in quimicoterapia 2004


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