Em Janeiro de 2016 fui convidada pelo Fernando Alvim a fazer um pouco de futurologia e falar de como seria Portugal daí a vinte anos no evento PORTUGAL 2036. Não tive tempo para escrever um texto original, por isso pedi à Sónia de 2036 que me fizesse uma descrição da época, o que ela também não pode fazer por falta de tempo, mas enviou-me um texto que foi escrito no dia 1 de Janeiro de 2036 para ser colocado numa cápsula do tempo que só será aberta em 2136. Este foi o texto que recebi, não é meu, pelo que não posso ser creditada nem por ele responsabilizada.
1 de Janeiro de 2036
Gerações do futuro, escrevemo-vos de 2036 para deixar um relato em primeira mão dos acontecimentos das últimas três décadas. Tem sido uma verdadeira aventura e uma honra viver em tempos tão importantes para a humanidade e que, se a devolveram ao sítio que era seu de direito, também a levaram ainda para mais perto do que alguma vez estivera de si mesma.
Da crise, da guerra e do terror, nasceu uma outra Terra, como uma flor de lótus emerge num lamaçal. Portugal, o pé da Europa, fez-se flor e é hoje a Meca da nova Era Dourada.
A crise e os problemas económicos forçaram a população a um êxodo inverso ao que se assistiu durante a Revolução Industrial. A cidade perdeu o sentido para grandes massas de população quando deixou de haver emprego, e os que ficaram sem trabalho foram os primeiros a partir. Nos que inicialmente permaneceram na cidade cresceu a insatisfação em relação ao modelo de escravatura vigente, uma lucidez que nos tinha abandonado em relação ao que deveria ser a vida e, pouco a pouco, também grande parte desses escolheu partir, alguns mantendo os empregos à distância através da internet. Nas cidades ficaram apenas os necessários para providenciar os serviços mínimos.
Este êxodo maciço forçou o Estado e as companhias a restruturarem-se. A população tornou-se independente do sistema de troca de valores monetários ao cultivar e produzir a sua própria comida, e pôde, por isso, desescravizar-se. O trabalho para outrém passou a ser um extra, uma cedência que cada um faz a troco de valores elevados. Foi assim que deixámos de trabalhar dias inteiros e reconquistámos o direito a viver. O dia passou a pertencer a cada um, e o trabalho a ocupar umas horas por dia.
O homem passou a ter tempo para estar consigo e estar em paz. Começámos a olhar para o mundo e vimos pela primeira vez as árvores, o céu, a terra. Ganhámos espaço para existir e no meio da natureza lembrámo-nos de que somos animais e comovemo-nos muitas vezes com o voo dos pássaros e os nasceres e pores do sol. Descobrimos que estávamos vivos, que não éramos máquinas. Estávamos vivos.
Comunidades auto-suficientes e com ideias novas surgiram. Todos os homens tinham agora tempo para reflectir e apareceram muitas ideias para os novos tempos. Criaram-se escolas nessas comunidades e foi por causa dessas escolas que se lançou a semente da grande mudança. Pela primeira vez crianças foram ensinadas a desabrochar. Não lhes castrámos nada, antes lhes demos a mão para as ajudar a descobrir o que queriam saber.
Ensinámos-lhes meditação desde cedo, e por isso elas nunca foram controladas pela própria mente, antes a controlam e dominam elas. Ensinar-lhes o silêncio mental levou-as a descobrir a ligação profunda a si mesmas. Cresceram a ser inteligentes com o coração e são a primeira geração verdadeiramente dona da sua existência, verdadeiramente reencontrada com o que de mais alto há nos humanos. São a primeira geração dourada.
Eles são também o fruto de um ensino que deixou de premiar a memorização de conhecimento para passar a incentivar o espírito crítico, a descoberta pelas próprias vias, o pôr em causa, o pensamento original. A arte passou também para primeiro plano. Criamos crianças e jovens únicos, sem qualquer obrigação face a padrões normativos. Mostramos-lhes que estão certas quando seguem a intuição e incentivamo-las a fazê-lo. Alimentamos a ligação ao sonho e à originalidade.
Damos-lhes as bases para poderem tudo, e deixamo-las escolher desde sempre. À sua disposição têm todas as disciplinas de estudo, incluíndo as que recuperámos de tradições milenares, e são livres para se focar em qualquer uma delas. Ensinamo-las a conhecer o seu corpo, para o que contribui a prática de yoga, e mostramos-lhes as dimensões não visíveis mas bem reais do mesmo.
A erradicação das doenças veio como consequência deste domínio do corpo e do reacordar da nossa relação com a natureza. Abandonámos os químicos. Os cancros, que há 20 anos atrás eram a praga do século, desapareceram. Ao encontrar-se, o homem descobriu o seu corpo, já não como um acaso, mas como uma benção. Reconheceu a magia de estar em si mesmo e percebeu que podia falar com o corpo e dizer às suas células o que pretende delas. A esperança média de vida de uma criança que nasça hoje é de 150 anos, mas acreditamos que os humanos que nos lerem no futuro viverão o tempo que quiserem.
No início do século vivemos a era gloriosa da internet, mas hoje em dia só a usamos para coisas oficiais e, principalmente, para travar contacto com quem ainda está pouco avançado na intranet, nomeadamente os mais velhos. Junto dos jovens, contudo, o apelo da internet é praticamente nulo, o que é fácil de entender.
A descoberta da intranet é um dos maiores feitos de sempre. É muito antigo o pressentimento de que a humanidade está ligada de uma maneira inexplicável, mas só agora descobrimos como usar essa ligação em massa. Ainda existem telemóveis e computadores, mas estão relegadas para o sítio em que estava o discman há 20 anos. A telepatia começou a ganhar terreno sobre as máquinas por volta de 2025, o que é irreversível, até porque as crianças descobrem cada vez mais novas capacidades, novos sentidos até aqui dormentes.
Hoje, em 2036, Portugal é essa coisa a que Pessoa chamou de Quinto Império. Como o próprio disse, já não um império da matéria, mas o império do espírito. Entendemo-lo bem agora que somos uma nação de filhos dourados, a nação primeira da Era Dourada.
Gerações do futuro, escrevemo-vos de 2036 para deixar um relato em primeira mão dos acontecimentos das últimas três décadas. Tem sido uma verdadeira aventura e uma honra viver em tempos tão importantes para a humanidade e que, se a devolveram ao sítio que era seu de direito, também a levaram ainda para mais perto do que alguma vez estivera de si mesma.
Da crise, da guerra e do terror, nasceu uma outra Terra, como uma flor de lótus emerge num lamaçal. Portugal, o pé da Europa, fez-se flor e é hoje a Meca da nova Era Dourada.
A crise e os problemas económicos forçaram a população a um êxodo inverso ao que se assistiu durante a Revolução Industrial. A cidade perdeu o sentido para grandes massas de população quando deixou de haver emprego, e os que ficaram sem trabalho foram os primeiros a partir. Nos que inicialmente permaneceram na cidade cresceu a insatisfação em relação ao modelo de escravatura vigente, uma lucidez que nos tinha abandonado em relação ao que deveria ser a vida e, pouco a pouco, também grande parte desses escolheu partir, alguns mantendo os empregos à distância através da internet. Nas cidades ficaram apenas os necessários para providenciar os serviços mínimos.
Este êxodo maciço forçou o Estado e as companhias a restruturarem-se. A população tornou-se independente do sistema de troca de valores monetários ao cultivar e produzir a sua própria comida, e pôde, por isso, desescravizar-se. O trabalho para outrém passou a ser um extra, uma cedência que cada um faz a troco de valores elevados. Foi assim que deixámos de trabalhar dias inteiros e reconquistámos o direito a viver. O dia passou a pertencer a cada um, e o trabalho a ocupar umas horas por dia.
O homem passou a ter tempo para estar consigo e estar em paz. Começámos a olhar para o mundo e vimos pela primeira vez as árvores, o céu, a terra. Ganhámos espaço para existir e no meio da natureza lembrámo-nos de que somos animais e comovemo-nos muitas vezes com o voo dos pássaros e os nasceres e pores do sol. Descobrimos que estávamos vivos, que não éramos máquinas. Estávamos vivos.
Comunidades auto-suficientes e com ideias novas surgiram. Todos os homens tinham agora tempo para reflectir e apareceram muitas ideias para os novos tempos. Criaram-se escolas nessas comunidades e foi por causa dessas escolas que se lançou a semente da grande mudança. Pela primeira vez crianças foram ensinadas a desabrochar. Não lhes castrámos nada, antes lhes demos a mão para as ajudar a descobrir o que queriam saber.
Ensinámos-lhes meditação desde cedo, e por isso elas nunca foram controladas pela própria mente, antes a controlam e dominam elas. Ensinar-lhes o silêncio mental levou-as a descobrir a ligação profunda a si mesmas. Cresceram a ser inteligentes com o coração e são a primeira geração verdadeiramente dona da sua existência, verdadeiramente reencontrada com o que de mais alto há nos humanos. São a primeira geração dourada.
Eles são também o fruto de um ensino que deixou de premiar a memorização de conhecimento para passar a incentivar o espírito crítico, a descoberta pelas próprias vias, o pôr em causa, o pensamento original. A arte passou também para primeiro plano. Criamos crianças e jovens únicos, sem qualquer obrigação face a padrões normativos. Mostramos-lhes que estão certas quando seguem a intuição e incentivamo-las a fazê-lo. Alimentamos a ligação ao sonho e à originalidade.
Damos-lhes as bases para poderem tudo, e deixamo-las escolher desde sempre. À sua disposição têm todas as disciplinas de estudo, incluíndo as que recuperámos de tradições milenares, e são livres para se focar em qualquer uma delas. Ensinamo-las a conhecer o seu corpo, para o que contribui a prática de yoga, e mostramos-lhes as dimensões não visíveis mas bem reais do mesmo.
A erradicação das doenças veio como consequência deste domínio do corpo e do reacordar da nossa relação com a natureza. Abandonámos os químicos. Os cancros, que há 20 anos atrás eram a praga do século, desapareceram. Ao encontrar-se, o homem descobriu o seu corpo, já não como um acaso, mas como uma benção. Reconheceu a magia de estar em si mesmo e percebeu que podia falar com o corpo e dizer às suas células o que pretende delas. A esperança média de vida de uma criança que nasça hoje é de 150 anos, mas acreditamos que os humanos que nos lerem no futuro viverão o tempo que quiserem.
No início do século vivemos a era gloriosa da internet, mas hoje em dia só a usamos para coisas oficiais e, principalmente, para travar contacto com quem ainda está pouco avançado na intranet, nomeadamente os mais velhos. Junto dos jovens, contudo, o apelo da internet é praticamente nulo, o que é fácil de entender.
A descoberta da intranet é um dos maiores feitos de sempre. É muito antigo o pressentimento de que a humanidade está ligada de uma maneira inexplicável, mas só agora descobrimos como usar essa ligação em massa. Ainda existem telemóveis e computadores, mas estão relegadas para o sítio em que estava o discman há 20 anos. A telepatia começou a ganhar terreno sobre as máquinas por volta de 2025, o que é irreversível, até porque as crianças descobrem cada vez mais novas capacidades, novos sentidos até aqui dormentes.
Assistir à passagem da idade das trevas para a Era Dourada foi duro e muito bonito. Não acordámos todos ao mesmo tempo, e os que acordaram primeiro sofreram bastante no processo. O mundo pré-dourado vivia focado no ouro sem saber que o ouro que buscava fora era afinal uma metáfora para o ouro que estava por arder no peito. Durante milénios os que sabiam a verdade foram queimados, torturados, crucificados, difamados, ridicularizados, tidos como tolos. Agradecemos sempre aos que através das eras foram passando a palavra. É graças à sabedoria que sobreviveu ao medo e ao controlo dos grandes impérios que chegámos aqui hoje. Não podemos por isso deixar de honrar neste documento todos os que fizeram de ponte ao longo dos tempos.
Em especial, há que nomear os portugueses Bandarra, Padre António Vieira e Fernando Pessoa. Deles nos chegaram ideias e força, e com a sua esperança alimentámos a nossa e sonhámos sem vergonha ao lado dos maiores sonhadores. Com o seu fogo, iluminámos o caminho e fizemos tudo para fazer dos sonhos que tínhamos em comum uma realidade.Hoje, em 2036, Portugal é essa coisa a que Pessoa chamou de Quinto Império. Como o próprio disse, já não um império da matéria, mas o império do espírito. Entendemo-lo bem agora que somos uma nação de filhos dourados, a nação primeira da Era Dourada.
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