sexta-feira, 14 de setembro de 2007

As minhas lágrimas desaparecem assim que secam. Nem eu me lembro mais de as ter vertido nem o seu porquê.*

É urgente perder a urgência. É urgente demorar-se nos momentos. É urgente viver.

Um dia olharemos para os buracos empoeirados que enchemos de segredos confusos e não compreenderemos mais nada nem conseguiremos jamais construir com essas partes a nossa vida. Em nós haverá somente a sensação de que algo nos tocou ao de leve e a vida não será mais do que um puzzle a que perdemos peças. A memória morre todos os dias. Com ela morremos nós também e o que vivemos fica na areia que pisámos e na pegada que se vai apagando com o tempo. Não há textos nem vídeos nem fotografias nem bilhetes nem recordações. Nada nos pode devolver o que foi. Ou o que poderia ter sido se não estivessemos tão preocupados com a colheita de provas.
Um dia vamos debruçar-nos sobre a janela e a nossa vida vai estar longe, vai estar a apagar-se, vai estar vivida e esquartejada, retirada da verdade e da sua força por nós e por aquilo que falhamos em conseguir. Fomos uma poeira no ar, um sopro, a lembrança de uma comichão ou de uma pontada, um sorriso sobre uma gargalhada, o reviver de um cheiro antigo e a sensação de algo a roçar a pele. Não sabemos mais o que foi. O que foi desapareceu logo depois de ter sido. Que o roçar se tenha bastado a si mesmo. Por favor.
Tudo de bom para a pessoa que fui, é o que desejo e é tudo o que posso desejar. Não lhe chego, não a conheço, não lhe posso dizer nada. Olho para ela e não sei se vive ou sente. Ela parece-se comigo mas não sou eu. Digo-lhe que viva, mas a vida dela já está feita e acabou. Sei que não tarda serei o mesmo que ela e outra se criará num outro tempo. A essa, o grito de aviso e lucidez tentando passar dimensões diferentes. É impossível revisitar os momentos através da memória. A memória é uma puta falaciosa. Nas cuecas traz os 5 euros que lhe demos para que nos mentisse docemente.
É a nós mesmos que fugimos a cada segundo. Nada te vai trazer de volta aos momentos. Lá, terás de ser só.


Ou então tudo foi em vão.



*ou Yumeji's Theme: .

4 comentários:

A.S. disse...

Primeiro, estarei a sonhar se disser que te vi, agora mesmo, numa série junevil que dá no canal-2? Era qualquer coisa num hotel com uma piscina e estavas de roupão branco e com os lábios muito pintados...

"É impossível revisitar os momentos através da memória."

E temos a mesma opinião. Como sabes!

Stormy Mind disse...

Mas, pelo menos, vivemos... Pessoalmente, passo pouco tempo a contemplar fragmentos do passado ou a resgatar, na minha mente, sombras do que já não existe. Não querendo fazer uma indução errada, penso que, muitas vezes, o acto de nos virarmos para o passado implica saudade e insatisfação no presente. Apesar de o passado servir de refúgio e de elemento apaziguador, prefiro procurar no presente os meios para recuperar o que perdi (sempre que possível), para simular o passado ou então para criar vivências completamente diferentes mas igualmente agradáveis. Isto porque não podemos viver no passado. Acho que o devemos ver como um caminho percorrido, do qual podemos tirar muitas informações e recordações, mas devemos estar sempre com os olhos postos no que ainda está por percorrer. Caso contrário, o passado pode tornar-se em algo parecido com a morfina.

P.S. Bonita música que escolheste para acompanhar as tuas palavras. Uma bela escolha. :)

Luis Prata disse...

Excelente texto.. o mais profundo..

A melodia escolhida acompanha a leitura na perfeição..

5* e um share...

Anónimo disse...

Olá Sónia.
Gosto do teu blog, escrita, tal como deste texto...

Ainda que formal, partilho contigo esta ideia, pode se? É, aqui, fazes ter-me na pluralidade multidimensional do ser, e recordar que, quais berlindes de metal - esferas magnéticas - vogamos soltos pelo espaço e tempo; nós, verdadeiramente nós... E viajamos, sempre, atraindo a todo o percurso dessa imensa viagem, toda uma série de factos e coisas que se pegam e colam à camada exterior do que ou quem somos verdadeiramente... E somos sempre nós, independentemente do que, quando, porque, ou quem, nos envolve o âmago... Umas, largamos e ficam para traz, outras porém, permanecem-nos coladas, por mais ou menos tempo, dependendo do impacto e valência das condições, importância, e capacidade de as retermos... Por vezes, estamos tão envolvidos por informações exteriores - essas tais coisas - que nem a nossos próprios olhos ousamos reconhecer quem se encontra no centro de tudo: a esfera do eu... Outras vezes ainda, e porque fazem parte de nós, ao ficarmos despidos desses “tudos”, quase julgamos não sermos, ou não estarmos, quando no fundo, não estamos mais do que somente habituados a não conseguir furar a camada dos apegos, e olhar para o que está lá dentro, tão fundo... como se nos alheássemos da sua existência, essa que guarda sempre a memória do que nos tocou, penetrou, ou roçou, na viagem, acrescentando ou retirando novas formas ao que e quem somos... Prefiro acreditar que um aroma que me extasiou à tempos atrás, ainda que hoje não o sinta, continua a fazer parte de mim, como um todo... e que, à superfície, difícil é lembrar-me da origem da viagem e de quem a encetou; porque não a vejo, não toco, cheiro, ou controlo...simplesmente... E se, pelo passar do tempo e experiências, nos é confortável pensarmos que hoje não somos mais quem éramos ontem, certamente que hoje seremos sempre quem seremos amanhã, porque, passado, presente e futuro, coexistem sempre no único momento em que somos e estamos...aqui...porque somente muda a forma do sentir o que é, foi, e será...em função das variáveis formais... De qualquer modo, é como dizes: “é impossível revisitar os acontecimentos através da memória”...porque, limitada ao possível congelamento do momento...

E como prometido, aqui fica o linque do meu blog...

http://axlemushine.livejournal.com/

Ginhos
Paulo