A história é mais ou menos assim:
1. miúda escreve blog
2. miúda deixa de escrever blog
3. miúda volta a escrever blog
Pelo meio dei à luz um livro de poemas, CONSTELAÇÃO (Mariposa Azual, 2015),
e estes textos noutros sítios (para ler os textos completos, sigam os links):
Sokurov e o museu como espaço de direito do cinema, in P3 (30.12.2011)
"Dercon relembra que Sokurov lhe disse que a pintura acabou no século XIX, que toda a arte contemporânea é odiável, e que a seu ver a pintura contemporânea é o cinema. Parece-me evidente que a arte de Sokurov procura um espaço de irmandade entre as suas obras e as que admira, num diálogo atravessando os séculos e as formas."
"Dercon relembra que Sokurov lhe disse que a pintura acabou no século XIX, que toda a arte contemporânea é odiável, e que a seu ver a pintura contemporânea é o cinema. Parece-me evidente que a arte de Sokurov procura um espaço de irmandade entre as suas obras e as que admira, num diálogo atravessando os séculos e as formas."
Saudades: já chorei em aeroportos ao deixar quem não queria ver partir, in P3 (19.07.2012)
"A caminho, penso no conforto estrutural e inabalável do quotidiano,
que a minha ausência não faz colapsar. Um sítio-amor a que posso voltar
sempre, e onde sinto que nunca fui embora. Estou constantemente em
dívida, de arma em riste contra a ausência, e ainda assim falho, porque
não consigo melhor."
Fernando Pessoa escolha-múltipla, in P3 (24.03.2015)
"Ao oferecer em cada poema múltiplas variações do mesmo, Pessoa coloca nele todas as opções em simultâneo e ao mesmo tempo e só com a chegada do editor passa então a existir uma. O poema de Pessoa está para a literatura como o gato de Schroedinger está para a física quântica."
"Ao oferecer em cada poema múltiplas variações do mesmo, Pessoa coloca nele todas as opções em simultâneo e ao mesmo tempo e só com a chegada do editor passa então a existir uma. O poema de Pessoa está para a literatura como o gato de Schroedinger está para a física quântica."
O princípio do fim das fronteiras, in Visão (04.11.2015)
"Temos muito para fazer, mas não será em vão se um dia formos livres, donos da Terra sem a possuir e sem pertencer a parte alguma, mas sendo de todas as partes."
"Temos muito para fazer, mas não será em vão se um dia formos livres, donos da Terra sem a possuir e sem pertencer a parte alguma, mas sendo de todas as partes."
Cabo Carvoeiro, in Visão (10.12.2015)
"Tudo parece começar e acabar aqui, nesta rocha lançada contra o oceano. A cabeça do continente estica o pescoço sobre o mistério e olha outras terras, a que vemos no horizonte e as que não vemos mas adivinhamos."
"Tudo parece começar e acabar aqui, nesta rocha lançada contra o oceano. A cabeça do continente estica o pescoço sobre o mistério e olha outras terras, a que vemos no horizonte e as que não vemos mas adivinhamos."
Para sempre é o som, in Visão (12.01.2016)
"A Terra é uma canção, um coro imenso de biliões de anos que a cada nascimento ganha uma nova
voz e muda um pouco. Nela e pela eternidade ecoa cada vida. Todos os altos de compaixão e amor e todos os baixos de ódio e agressão soam pelos tempos fora como um nome inscrito num sino. Passamos pelo planeta como cometas, ardemos rápido, mas o que escolhemos ser e fazer vibra nele
para sempre."
"A Terra é uma canção, um coro imenso de biliões de anos que a cada nascimento ganha uma nova
voz e muda um pouco. Nela e pela eternidade ecoa cada vida. Todos os altos de compaixão e amor e todos os baixos de ódio e agressão soam pelos tempos fora como um nome inscrito num sino. Passamos pelo planeta como cometas, ardemos rápido, mas o que escolhemos ser e fazer vibra nele
para sempre."
Lovers gonna love, in Visão (09.05.2016)
"Do futuro chega-lhe ar quente. Há mãos dadas, um mato de arbustos passa a floresta, as árvores já não são cortadas, ninguém teme as sombras ou as sobras. Já não se sabe o que quer dizer a palavra rasteira. Quer-se amar, acima de tudo amar. Sabe-se que querer ir à frente é igual a querer que outro vá à frente."
"Do futuro chega-lhe ar quente. Há mãos dadas, um mato de arbustos passa a floresta, as árvores já não são cortadas, ninguém teme as sombras ou as sobras. Já não se sabe o que quer dizer a palavra rasteira. Quer-se amar, acima de tudo amar. Sabe-se que querer ir à frente é igual a querer que outro vá à frente."
Requiem para a imprensa, in Visão (04.07.2016)
"Há cem anos estávamos aqui. A internet não nos salvou da manipulação da opinião pública no sentido de extremar as opiniões, de acentuar os nacionalismos, nem do uso do medo para o conseguir. Sabemos todos onde leva isto. Os holocaustos não acontecem da noite para o dia e estamos outra vez no caminho que vai dar a barbáries."
"Há cem anos estávamos aqui. A internet não nos salvou da manipulação da opinião pública no sentido de extremar as opiniões, de acentuar os nacionalismos, nem do uso do medo para o conseguir. Sabemos todos onde leva isto. Os holocaustos não acontecem da noite para o dia e estamos outra vez no caminho que vai dar a barbáries."
Invocativo, in Visão (16.02.2017)
"Portugal não gosta de quem é bom. Faz muita sombra. Faz muito pensar. Portugal não gosta. Portugal diz muito que não podes ser, assim, assado e muito menos tudo. Portugal não quer só não ser, quer também que tu não sejas, que não lhe lembres que ele se esqueceu de existir. Portugal quer tudo igual, fácil e encaixotável. Portugal à beira mar plantado não quer ondas. Abdica-te-se-queres-ser-daqui, grita ele indignado com a tua coragem. Aqui, essa terra que compra o mau a achar que é bom e que não tem nem vergonha nem consciência. Aqui, onde se premeia o medíocre e se abafa o génio, aqui."
"Portugal não gosta de quem é bom. Faz muita sombra. Faz muito pensar. Portugal não gosta. Portugal diz muito que não podes ser, assim, assado e muito menos tudo. Portugal não quer só não ser, quer também que tu não sejas, que não lhe lembres que ele se esqueceu de existir. Portugal quer tudo igual, fácil e encaixotável. Portugal à beira mar plantado não quer ondas. Abdica-te-se-queres-ser-daqui, grita ele indignado com a tua coragem. Aqui, essa terra que compra o mau a achar que é bom e que não tem nem vergonha nem consciência. Aqui, onde se premeia o medíocre e se abafa o génio, aqui."
Uma (R)evolução, logo, a (R)evolução, in Visão (23.02.2017)
"Confiar em alguém era afinal uma coisa muito poderosa. Ligar-se a outro humano tinha a capacidade de colocar em movimento o amor, tal como a desconfiança se propagava como um vírus. Proteger o coração era mantê-lo puro, não fechado, manter longe o medo e a intuição sempre acesa para ouvir o alerta quando fosse preciso, mas fazer da regra confiar."
"Confiar em alguém era afinal uma coisa muito poderosa. Ligar-se a outro humano tinha a capacidade de colocar em movimento o amor, tal como a desconfiança se propagava como um vírus. Proteger o coração era mantê-lo puro, não fechado, manter longe o medo e a intuição sempre acesa para ouvir o alerta quando fosse preciso, mas fazer da regra confiar."
Do futuro da espécie, in Visão (02.03.2017)
"Crer que a solução é ir para outro planeta, inóspito, e esperar que, com a nossa acção, ele possa talvez vir a assemelhar-se com este, quando o nosso historial é o de uma espécie que destrói ecossistemas e planetas, não o inverso, é incompreensível."
"Crer que a solução é ir para outro planeta, inóspito, e esperar que, com a nossa acção, ele possa talvez vir a assemelhar-se com este, quando o nosso historial é o de uma espécie que destrói ecossistemas e planetas, não o inverso, é incompreensível."
Por último, deixo aqui O erguer das bandeiras, que foi publicado em papel no Sol (15.11.2015) e, por isso, não tem versão online:
Não conheço algumas das pessoas mais importantes da minha vida. São pessoas que me esticaram a mão através das palavras e da arte que enviaram para o mundo. Com elas cresci a saber que havia mais como eu. Nos seus livros e nas suas músicas griatavam-me a força que me faltava receber de um mundo que rejeita e ataca quem vê com o coração.
Através das suas obras encontrei os irmãos de espírito que me faltavam e tive as conversas que não podia ter com ninguém. Passei a vida a dialogar com eles, a pensar a minha obra e a minha vida com eles, através das suas.
Não há separação entre arte e vida. Dedicar-se à arte é como entregar-se a deus. É assumir uma missão e deixá-la tomar conta da vida, do espírito e de tudo o resto. Ser artista é ser sacerdote e guerreiro, estar neste mundo, mas sempre nas margens, a tentar destruir a fronteira ou descobrir uma porta, e fugir a cada instante da contaminação do espírito.
É preciso coragem. É preciso força. É preciso calma. É preciso manter o caminho para o coração desobstruído no meio da selva de mesquinhez e maldade, e ouvir sempre e mais a voz interna. Ser uma luz perene a cruzar a noite dos espíritos.
Assim são eles. As suas obras totais são parte vida, parte arte, e relembram-me de que uma existência consicente é a que sabe que, pelo simples facto de ser, empurra um pouco o planeta para onde crê estar o ideal.
Num mundo que ainda glorifica a apatia e que trocou a utopia por coisas e likes, agarrei-me ao Fernando Pessoa, à Yoko Ono, ao George Harrison, ao John Lennon, à Sophia de Mello Breyner Andresen, ao Agostinho da Silva, à Patti Smith.
Mestres e irmãos, são o exemplo de que nada importa mais do que levar ao alto o coração e servir um ideal, amar o sonho e fazê-lo existir com toda a força, ainda que não seja para agora, ainda que o seu tempo esteja a ser desenhado no futuro. Não importa o bling fátuo das coisas imediatas. o caminho do coração faz-se pelas coisas profundoas e eternas.
Do lado de lá das suas obras, gritam que é possível. É isso que eles dizem. "Se aqui estamos nós, é possível. Agarra a lágrima que cai e o arrepio, agarra a magia. Ela é preciosa e escasseia. Agarra-a e mostra-a, ergue uma bandeira. Foi o que fizemos, uma bandeira para ti."
Não conheço algumas das pessoas mais importantes da minha vida. São pessoas que me esticaram a mão através das palavras e da arte que enviaram para o mundo. Com elas cresci a saber que havia mais como eu. Nos seus livros e nas suas músicas griatavam-me a força que me faltava receber de um mundo que rejeita e ataca quem vê com o coração.
Através das suas obras encontrei os irmãos de espírito que me faltavam e tive as conversas que não podia ter com ninguém. Passei a vida a dialogar com eles, a pensar a minha obra e a minha vida com eles, através das suas.
Não há separação entre arte e vida. Dedicar-se à arte é como entregar-se a deus. É assumir uma missão e deixá-la tomar conta da vida, do espírito e de tudo o resto. Ser artista é ser sacerdote e guerreiro, estar neste mundo, mas sempre nas margens, a tentar destruir a fronteira ou descobrir uma porta, e fugir a cada instante da contaminação do espírito.
É preciso coragem. É preciso força. É preciso calma. É preciso manter o caminho para o coração desobstruído no meio da selva de mesquinhez e maldade, e ouvir sempre e mais a voz interna. Ser uma luz perene a cruzar a noite dos espíritos.
Assim são eles. As suas obras totais são parte vida, parte arte, e relembram-me de que uma existência consicente é a que sabe que, pelo simples facto de ser, empurra um pouco o planeta para onde crê estar o ideal.
Num mundo que ainda glorifica a apatia e que trocou a utopia por coisas e likes, agarrei-me ao Fernando Pessoa, à Yoko Ono, ao George Harrison, ao John Lennon, à Sophia de Mello Breyner Andresen, ao Agostinho da Silva, à Patti Smith.
Mestres e irmãos, são o exemplo de que nada importa mais do que levar ao alto o coração e servir um ideal, amar o sonho e fazê-lo existir com toda a força, ainda que não seja para agora, ainda que o seu tempo esteja a ser desenhado no futuro. Não importa o bling fátuo das coisas imediatas. o caminho do coração faz-se pelas coisas profundoas e eternas.
Do lado de lá das suas obras, gritam que é possível. É isso que eles dizem. "Se aqui estamos nós, é possível. Agarra a lágrima que cai e o arrepio, agarra a magia. Ela é preciosa e escasseia. Agarra-a e mostra-a, ergue uma bandeira. Foi o que fizemos, uma bandeira para ti."



