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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Voltando a erguer a bandeira

A história é mais ou menos assim:
1. miúda escreve blog
2. miúda deixa de escrever blog
3. miúda volta a escrever blog

Pelo meio dei à luz um livro de poemas, CONSTELAÇÃO (Mariposa Azual, 2015),



e estes textos noutros sítios (para ler os textos completos, sigam os links):

Sokurov e o museu como espaço de direito do cinema, in P3 (30.12.2011)
"Dercon relembra que Sokurov lhe disse que a pintura acabou no século XIX, que toda a arte contemporânea é odiável, e que a seu ver a pintura contemporânea é o cinema. Parece-me evidente que a arte de Sokurov procura um espaço de irmandade entre as suas obras e as que admira, num diálogo atravessando os séculos e as formas."

Saudades: já chorei em aeroportos ao deixar quem não queria ver partir, in P3 (19.07.2012)
"A caminho, penso no conforto estrutural e inabalável do quotidiano, que a minha ausência não faz colapsar. Um sítio-amor a que posso voltar sempre, e onde sinto que nunca fui embora. Estou constantemente em dívida, de arma em riste contra a ausência, e ainda assim falho, porque não consigo melhor."

Fernando Pessoa escolha-múltipla, in P3 (24.03.2015)
"Ao oferecer em cada poema múltiplas variações do mesmo, Pessoa coloca nele todas as opções em simultâneo e ao mesmo tempo e só com a chegada do editor passa então a existir uma. O poema de Pessoa está para a literatura como o gato de Schroedinger está para a física quântica."

O princípio do fim das fronteiras, in Visão (04.11.2015)
"Temos muito para fazer, mas não será em vão se um dia formos livres, donos da Terra sem a possuir e sem pertencer a parte alguma, mas sendo de todas as partes." 

Cabo Carvoeiro, in Visão (10.12.2015)
"Tudo parece começar e acabar aqui, nesta rocha lançada contra o oceano. A cabeça do continente estica o pescoço sobre o mistério e olha outras terras, a que vemos no horizonte e as que não vemos mas adivinhamos."

Para sempre é o som, in Visão (12.01.2016)
"A Terra é uma canção, um coro imenso de biliões de anos que a cada nascimento ganha uma nova
voz e muda um pouco. Nela e pela eternidade ecoa cada vida. Todos os altos de compaixão e amor e todos os baixos de ódio e agressão soam pelos tempos fora como um nome inscrito num sino. Passamos pelo planeta como cometas, ardemos rápido, mas o que escolhemos ser e fazer vibra nele
para sempre."

Lovers gonna love, in Visão (09.05.2016)
"Do futuro chega-lhe ar quente. Há mãos dadas, um mato de arbustos passa a floresta, as árvores já não são cortadas, ninguém teme as sombras ou as sobras. Já não se sabe o que quer dizer a palavra rasteira. Quer-se amar, acima de tudo amar. Sabe-se que querer ir à frente é igual a querer que outro vá à frente."

Requiem para a imprensa, in Visão (04.07.2016)
"Há cem anos estávamos aqui. A internet não nos salvou da manipulação da opinião pública no sentido de extremar as opiniões, de acentuar os nacionalismos, nem do uso do medo para o conseguir. Sabemos todos onde leva isto. Os holocaustos não acontecem da noite para o dia e estamos outra vez no caminho que vai dar a barbáries."

Invocativo, in Visão (16.02.2017)
"Portugal não gosta de quem é bom. Faz muita sombra. Faz muito pensar. Portugal não gosta. Portugal diz muito que não podes ser, assim, assado e muito menos tudo. Portugal não quer só não ser, quer também que tu não sejas, que não lhe lembres que ele se esqueceu de existir. Portugal quer tudo igual, fácil e encaixotável. Portugal à beira mar plantado não quer ondas. Abdica-te-se-queres-ser-daqui, grita ele indignado com a tua coragem. Aqui, essa terra que compra o mau a achar que é bom e que não tem nem vergonha nem consciência. Aqui, onde se premeia o medíocre e se abafa o génio, aqui."

Uma (R)evolução, logo, a (R)evolução, in Visão (23.02.2017)
"Confiar em alguém era afinal uma coisa muito poderosa. Ligar-se a outro humano tinha a capacidade de colocar em movimento o amor, tal como a desconfiança se propagava como um vírus. Proteger o coração era mantê-lo puro, não fechado, manter longe o medo e a intuição sempre acesa para ouvir o alerta quando fosse preciso, mas fazer da regra confiar."

Do futuro da espécie, in Visão (02.03.2017)
"Crer que a solução é ir para outro planeta, inóspito, e esperar que, com a nossa acção, ele possa talvez vir a assemelhar-se com este, quando o nosso historial é o de uma espécie que destrói ecossistemas e planetas, não o inverso, é incompreensível."

Por último, deixo aqui O erguer das bandeiras, que foi publicado em papel no Sol (15.11.2015) e, por isso, não tem versão online: 

Não conheço algumas das pessoas mais importantes da minha vida. São pessoas que me esticaram a mão através das palavras e da arte que enviaram para o mundo. Com elas cresci a saber que havia mais como eu. Nos seus livros e nas suas músicas griatavam-me a força que me faltava receber de um mundo que rejeita e ataca quem vê com o coração.
Através das suas obras encontrei os irmãos de espírito que me faltavam e tive as conversas que não podia ter com ninguém. Passei a vida a dialogar com eles, a pensar a minha obra e a minha vida com eles, através das suas.
Não há separação entre arte e vida. Dedicar-se à arte é como entregar-se a deus. É assumir uma missão e deixá-la tomar conta da vida, do espírito e de tudo o resto. Ser artista é ser sacerdote e guerreiro, estar neste mundo, mas sempre nas margens, a tentar destruir a fronteira ou descobrir uma porta, e fugir a cada instante da contaminação do espírito.
É preciso coragem. É preciso força. É preciso calma. É preciso manter o caminho para o coração desobstruído no meio da selva de mesquinhez e maldade, e ouvir sempre e mais a voz interna. Ser uma luz perene a cruzar a noite dos espíritos.
Assim são eles. As suas obras totais são parte vida, parte arte, e relembram-me de que uma existência consicente é a que sabe que, pelo simples facto de ser, empurra um pouco o planeta para onde crê estar o ideal.
Num mundo que ainda glorifica a apatia e que trocou a utopia por coisas e likes, agarrei-me ao Fernando Pessoa, à Yoko Ono, ao George Harrison, ao John Lennon, à Sophia de Mello Breyner Andresen, ao Agostinho da Silva, à Patti Smith.
Mestres e irmãos, são o exemplo de que nada importa mais do que levar ao alto o coração e servir um ideal, amar o sonho e fazê-lo existir com toda a força, ainda que não seja para agora, ainda que o seu tempo esteja a ser desenhado no futuro. Não importa o bling fátuo das coisas imediatas. o caminho do coração faz-se pelas coisas profundoas e eternas.
Do lado de lá das suas obras, gritam que é possível. É isso que eles dizem. "Se aqui estamos nós, é possível. Agarra a lágrima que cai e o arrepio, agarra a magia. Ela é preciosa e escasseia. Agarra-a e mostra-a, ergue uma bandeira. Foi o que fizemos, uma bandeira para ti."

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Duane - um poema-poema

tu e eu
não temos direito nenhum sobre as coisas materiais
não nos é permitido usar substantivos concretos
porque nós não estamos
estamos
a ir

eu no negro do universo
a construir uma constelação
que fica para lá de ti

sábado, 12 de novembro de 2011

sábado, 30 de julho de 2011

As pessoas olham-me de lado quando escrevo nos transportes, como se eu planeasse algo, como se soubessem que às escondidas lhes sorvo vida.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O Repouso

Durante o SBSR fiquei a acampar com amigos no Repouso, parque de campismo na Lagoa de Albufeira que nos permitia estar em 15 minutos a pé no recinto. As viagens de ida pelo bosque ao fim da tarde e de vinda já a noite ia largar foram bonitas. As condições do parque aceitáveis. As visitas ao café para o pequeno-almoço um verdadeiro teste à paciência. O pedido mais simples demorava meia hora a ser executado. Eles desculparam-se com a falta de pessoal. Contaram-nos a fábula do senhor que lá ia todos os dias pedir trabalho, a quem contrataram na véspera e que, pela primeira vez, não tinha aparecido.  Mas o problema não era falta de pessoal. Era o pessoal que lá estava. Os olhos vazios e a não resposta quando se pedia o que quer que fosse, a lentidão nos passos e nos movimentos, o peso de quem ao invés de andar se arrasta. Percebi enfim que o problema era a percepção do tempo, que claramente funcionava de forma diferente dentro daquelas quatro paredes. O tempo e a matéria.

Prémios de um sorteio a rifas 


Detalhe de um dos prémios
Mas a coisa mais maravilhosa que este universo paralelo tinha era uma happy hour à minha medida:


domingo, 24 de abril de 2011

Same old, same old

Enfiada nos meus calções a caminho da praia avistei mais à frente dois miúdos e duas miúdas com cerca de 14 anos. Não lhes prestei muita atenção mas à distância era óbvio que eram dois casais, ou até mais provavelmente dois futuros-casais a tentar disfarçar o facto exagerando a falsa descontracção, e sorri para a minha adolescência. Ouvi-os rir por cima do /Film no meu iPod e ouvi também o silêncio que se instalou quando os ultrapassei, que atribuí à natural vergonha que nessa idade se tem em frente a um adulto. Esqueci-me deles e voltei a focar a atenção no podcast, o qual foi engolido por um berro gutural e desumano (ao ponto de eu à distância ter ouvido claramente): PALITOS! 
Quase 10 anos depois do fim do secundário continuo sem perceber o que atravessa a mente dos pequenos bullies, mas o que me choca verdadeiramente é que crianças de 14 anos ainda me ataquem como se eu fosse uma delas.

terça-feira, 22 de março de 2011

Um nó

Esta coisa dos tweets de ouro fez-me sentir um misto de escola secundária


com Carrie





 com Grease



.

O que na verdade quer só dizer que isto me fez sentir escola secundária, eu é que misturo nas minhas memórias as que aconteceram (e as que acho que aconteceram porque a minha memória as inventou sem querer) com as imagens dos filmes.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

o poema não é a vida, o poema está nos meus olhos e na minha vontade de o ler.
o poema sou eu.
o poema sou eu!

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Eu gostava de ser da geração mãos à obra

A matutar no facto de aparentemente a minha geração querer (ou de quererem por ela) para hino uma música cuja letra só faria sentido se fosse irónica. 

Ponto 1. Não me parece que seja, pelo que me é impossível rever-me ou concordar com o desvario de coisas que nela se dizem: o elogio do deixa andar, do não se pensar em soluções nem se ser responsável pelo mundo (que é intrinsecamente parvo), da lamentação e da autocomiseração, do preferir-se ter/exibir a ser-se independente, do 'ficar a pensar' em vez de fazer, do exigir que as soluções nos caiam do céu, tal como a comida na mesa em casa dos pais.

Ponto 2. Mas mesmo que não estivesse a defender um ponto de vista em que não acredito, custar-me-ia sempre perceber que esta música fosse um hino porque ela não é mais do que um queixume e não apresenta nenhuma proposta de acção. Não posso acreditar que seja esse o mote que merecemos. Nada menos do que um às armas às armas!

(A música dos Deolinda está aqui.)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

You're my starry sky.


*
Every time you look up at the stars, it's like opening a door. You could be anyone, anywhere. You could be yourself at any moment in your life. You open that door and you realize you're the same person under the same stars. Camping out in the backyard with your best friend, eleven years old. Sixteen, driving alone, stopping at the edge of the city, looking up at the same stars. Walking a wooded path, kissing in the moonlight, look up and you're eleven again. Chasing cats in a tiny town, you're eleven again, you're sixteen again. You're in a rowboat. You're staring out the back of a car. Out here where the world begins and ends, it's like nothing ever stops happening.
*
Lost at Sea,
Bryan Lee O'Malley

P.S.: Ontem andei pelo Narcisicamente noite fora a investigar as esquinas de uma pessoa que eu deixei de ser. Entre mim e este meu canto criou-se um espaço que não havia. Adormeci a Verdade e a urgência de chegar, distraí-me com o Facebook e o Twitter, introverti e deixei o blog andar à deriva, passei a escrever em inglês e deixei de dizer.
Em contrapartida tornei-me no que passei aqui anos a lamentar não conseguir: hoje sou alguém com mãos na vida. Não sei através de que processo, mas sei que Londres fez isso por mim. Ou talvez tenha sido a distância de casa. Ou o tempo. 
Obrigada a todos os que sobreviveram a este hiato e continuam a insistir em vir ver se eu ressuscitei. É oficial, os trabalhos recomeçam neste. preciso. momento. 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011

Gostava de poder desejar bom ano em português sem a sensação de que desejo o que já sei que não vai acontecer. Ainda assim está nas nossas mãos - mais do que nunca - informarmo-nos, estarmos cientes do nosso poder individual para reagir ao momento, rejeitando com veemência o que claramente é feito contra os nossos interesses e nos prejudica, metendo mãos à obra e procurando soluções, exigindo nada menos do que a dignidade de um governo impoluto e incitando a uma maior consciência do que é isso de se ser cidadão e do que é isso de se ser governante. 

O Portugal pode ser tudo o que quiser, é só preciso que queira. E o Portugal é cada um de nós a escolher todos os dias entre o encostar-se e o fazer-se. 

Um 2011 à altura da nossa vontade!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Que língua para esta narcísica pátria em palavras?

*
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.
*
Fernando Pessoa
Livro do Desassossego

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Disse o Cesário à moça para a atrair para baixo da árvore*

*
EU E ELA

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distracção,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Flaublas...
*

*e ela fingiu que acreditou e foi.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

The w(hy/)ay.

Yesterday an artist friend of mine asked me what my plan B was. I didn't get the question. She tried to explain: "What will you do if this acting thing doesn't work out?". I looked at her puzzled by a question I'd never been asked or even thought about. She tried to clarify: "I mean, in our areas it's really hard to make good money and I can see myself having pleasure doing other things related to my art". I was struck by this thought, so new to me. Not that I don't get it, I just don't think it's a valid question. There is no plan B, I told her, there is no quitting, no doing something else. I do other things for the money so that I can do my art, not the other way around. Whether I'm happy with what I've accomplished (which I've learned from experience to be a very rare feeling) or not, I'll always be an actor. It's really not something I can control or abandon. It's in me.

And then I just let myself hit back and forth by the purity and the freshness of this absolute true, so real and so new.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

2009

Há um sítio no futuro onde existem somente os livros deixados pelos humanos e as inaudíveis conversas entre eles.
E há um outro sítio no futuro desse onde os livros se erodiram e a palavra nunca existiu.