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domingo, 20 de fevereiro de 2011

E quem diz a performance diz tudo o resto



*
A performance não é a transmissão do saber ou do respirar do artista ao espectador. É antes essa terceira coisa de que nenhum deles é proprietário, da qual nenhum deles possui o sentido, essa terceira coisa que se mantém entre os dois, retirando ao idêntico toda e qualquer possibilidade de transmissão, afastando qualquer identidade entre causa e efeito.
*
O Espectador Emancipado
(aqui completo),
Jacques Rancière

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Catching up.

Antes de sair a correr para o espectáculo queria só vir dar sinal de vida e dizer que está a correr bem, que acaba já domingo por isso se quiserem vir ver têm de se despachar e que os prémios para os 4 visitantes 100 000 do Narcisicamente estão a caminho, apesar de atrasados. De resto, está Verão na Londra e fui mencionada na crítica do remotegoat:

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Um sonho antigo

As infraestruturas culturais em Peniche são uma anedota. A última vez que estive no Stella Maris, um mini-teatro em que me estreei como actriz aos 12 anos, as cadeiras tinham sido arrancadas do chão e o espaço encontrava-se em franca degradação. Não sei se estava em processo de remodelação. Sei que entretanto o cinema fechou, e sei que nos últimos tempos já só havia sessão se o número de espectadores chegasse para compensar a despesa da projecção.
Sinto-me prejudicada por ter crescido numa cidade em que o acesso ao teatro, às artes performativas e à arte em geral era praticamente inexistente, e como eu tanta gente de todas as idades que por diversas razões não se podia deslocar às Caldas da Rainha ou a Óbidos.
Apesar dos esforços recentes da Câmara Municipal, traduzidos em exibições de filmes e na compra de espectáculos em ocasiões comemorativas, continua a faltar o essencial. Só um espaço dedicado exclusivamente a isso, com uma programação regular que permita a criação de hábitos, e posto ao serviço da população, em que ela seja de facto chamada a colaborar e a conceber, será verdadeiramente útil à cidade.

Para apoiar o Movimento por um Cine Teatro em Peniche juntai-vos via Facebook.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

The Race

*
After the morning roll call, which had lasted as it always did from four to eight hours, the SS made all the inmates leave in columns, a thousand women already numb from standing still. It was minus eighteen degrees centigrade. Five by five abreast in a field on the other side of the road facing the entrance to the camp, the women remained standing, without food or drink, until the end of the day. The SS, posted behind machine guns, where guarding the edges of the field. [...] Women were falling in the snow and dying. The others, tapping their feet, rubbing each other's backs, beating their arms so as not to freeze, watched the trucks pass loaded with the living and the dead on their way from Block 25 to the crematorium.
Around five o'clock in the evening, the whistle blew. The order to return. The columns reformed, five abreast. "When you get to the gate, run." The order was passed back through the ranks. Yes, we had to run. On either side of the camp's main street, in a tight edge, stood all the SS, male and female, all the kapos, the polizei, everyone with any rank. Armed with sticks, lashes, canes, and belts, they beat the women as they went by. We had to run to the other end of the camp. Swollen from the cold, chattering with fatigue, we had to run the gamut of blows. Those who could not run fast enough, who tripped or fell, were pulled out of the line, grabbed by the neck with a fist gripping cane, and tossed aside. When the race was finished and all the inmates were back in the block houses, the women who had been pulled aside were taken to Block 25. Fourteen of us were taken that day. In Block 25, you got almost nothing to eat or drink. People died there after a few days. Those not dead when the Sonderkommando (prisoners who worked in the crematorium) came to empty Block 25 left with the corpses for the gas chamber.
"The Race" - this is what we called it - took place on February 10, 1943, exactly two weeks after our arrival at Birkenau. Rumor had it we were being made to pay for Stalingrad.

Convoy to Auschwitz,
Charlotte Delbo
*

segunda-feira, 16 de março de 2009

Cesariny, mas por outras palavras e noutras bocas*



Rir Tendo Consciência da Tragédia, o muito adiado / trabalhado / trabalhoso projecto do há.que.dizê.lo, volta à Casa Conveniente esta semana. Aqui fica o trailer:



Bilhetes: 6 euros.
Reservas: 962352058 / 917054550

*ou No fim há-de ser só cinza, ardidos a dor e o caminho, queimados os quartos escuros que chamam por mim.

terça-feira, 3 de março de 2009

Provavelmente vou conseguir ver isto.


DRAMATURGIA,
de Dinis Machado
com consultoria de José Capela

Dramaturgia é o processo de gerir referentes com o objectivo de criar uma expansão artificial da realidade. Entendo assim que a arte não é um reflexo mais ou menos distorcido do real (uma cópia) mas um território artificial (não por isso menos real) contíguo e com o mesmo valor de todas as outras realidades a partir das quais se expande e com as quais realiza trocas.

Assim, cada artista carrega consigo um território intelectual artístico dinâmico do qual cada "obra" é um corte temporal provisório, uma pausa.

Por tudo isto, quando falo de dissolução entre arte e vida não falo de uma cópia muito aproximada do real ou de uma igualdade de importâncias entre real e ficcional. Quero antes concluir que ficção e realidade não são pontos que se opõem numa linha, dado que ficção é a produção de uma dada realidade e que todas as realidades são frutos de um processo de construção individual ou colectivo ficcional. Ou seja, ficção é o processo do qual uma realidade é objecto. Assim, o palco (chamemos assim por convenção a qualquer espaço defenido como cénico) não serve, para mim, como espaço invisível que deve acolher uma realidade externa, mas antes como um espaço com um funcionamento e história para o qual o artista produz uma realidade específica, habitando-o.

Teatro Taborda
de 18 a 29 de Março, de Quarta a Domingo
às 21:30h
Reservas: 218 854 190_ 96 801 52 51 (das 15h às 19h)
geral@teatrodagaragem.com / raquelpaz@teatrodagaragem.com

Figurinos de Mariana Sá Nogueira
Assistência de Raquel André
Produção Executiva de Catarina dos Santos

Projecto inserido no programa de novos encenadores "Try Better Fayl Better" promovido pelo Teatro da Garagem/Teatro Taborda.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Eu gostava era que isto viesse a Lisboa rapidinho

Espectáculo de Teatro,
de Rogério Nuno Costa a partir de "A Voz Humana", de Jean Cocteau.

20 de Setembro às 22:00 no Auditório Municipal de Vila do Conde [estreia nacional].
Conversa às 23:15 com a participação de Susana Chiocca no local do espectáculo.
Inscrição obrigatória aqui.

"Depois de "Saudades Do Tempo Em Que Se Dizia Texto" (2003), "ACTOR" (2004), "Vou A Tua Casa — trilogia" (2003/2006) e "A Oportunidade do Espectador" (2007/2008), pretendo avançar com uma possível conclusão de uma linha de pesquisa teatral que tem encontrado a sua máxima expressão no conceito abrangente de "espectáculo-tese". Tendo por base o texto "A Voz Humana", de Jean Cocteau, e partindo do pressuposto de teatro como lugar de reflexão multi-disciplinar, o que se propõe com "Espectáculo de Teatro" é a consolidação/comprovação da "tese vs. antítese" de que, perante uma ideia de depuração e clarificação analíticas do processo de construção do objecto teatral, acaba por ser insuperável a obtenção de uma dramaturgia que privilegia a própria mecânica do espectáculo tido como acontecimento social/político (numa visão exterior), ou como acontecimento técnico/tecnológico (numa visão interior). A apresentação deste projecto em Vila do Conde, em estreia absoluta, constituirá o nosso primeiro teste "sintético": para um espectáculo que se pretende parodial na sua mecânica interna e fracturante na sua relação com o espectador, o que fazer?"

Rogério Nuno Costa
Espiar o processo aqui.

domingo, 1 de junho de 2008

Os surrealistas na minha orelha*

Um dia vais querer ter feito coisas que não quiseste, como se tu pudesses ser a pessoa que não, já não és, como se pudesses atravessar dimensões irreconciliáveis. Um dia, o tempo às tuas costas a comer as formigas que carregas disfarçadas no negro da capa de veludo vai chegar-te à cabeça, vai entrar-te pelo olhos, vai devorar cada pedaço de azul e mel e daí em diante vai comer todas as imagens que viste, todas as imagens que inventaste para acalmar o espírito e todas as tuas memórias, deixando no seu lugar o vazio, o vazio e só a verdade do que não foste nem fizeste, os teus erros nas paredes em vez de quadros bonitos. O tempo bordado a medo vai-te corroer de fora para dentro, primeiro ao que roubaste ao mundo e depois a ti, que te escondias atrás disso. O que não fizeste vai atormentar-te para sempre. O que não fizeste. O que não deste. O que já tinhas esquecido.
Não posso chorar. Mas sou a favor da causa palestiniana. Hoje vi uma mulher ao pé do Tesco. Tinha umas pantufas verdes de papel e arrastava o pé direito. Estava toda curvada dentro de um casaco verde que crescia sobre ela e lhe roubava a cara. Um monstro-ninguém fluorescente com cheiro a merda e a tempo de que se tem vergonha de saber. Sem dignidade, mas viva. O sistema apresenta várias falhas mas continua a funcionar, a subsistir, a resistir. Não lhe vi a cara. Era uma mulher? Era a Europa. Era o Heiner Müller. Era a morte. Era o Jesus Cristo. Era o Super-Homem. Era a Amiga Olga. Era o Barack Obama. Era o Cristianismo. Era o Bin Laden. Era o Fernando Pessoa. Era eu. Não olhes para mim. Era eu. Era eu. Apaga a luz. Era eu.

*ou O meu último texto para o Cesariny.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O post cheio de inveja

Tive de abdicar do meu bilhete para o Cafe Muller porque me era impossível ir a Portugal, mas mata-me a certeza de que dificilmente vou voltar a ter a oportunidade de ver Pina Bausch fazer isto:

terça-feira, 15 de abril de 2008

Da Crí(p)tica

Sempre olhei de lado as citações da crítica que enchem os posters de espectáculos, álbuns ou filmes aqui no Reino Unido: tudo (das coisas mais extraordinárias à maior porcaria) tem comentários positivos das maiores publicações, feitos em duas ou três palavras para caberem bem entre aspas no poster. Parece que a coisa cheira mal a mais gente: esta lista do The Guardian traduz o que essas supostamente positivas frases querem dizer de facto. Aqui ficam algumas:

Epic I thought it would never end

This play is young and raw This play is written by someone whose sole experience of drama is watching EastEnders

Dense, intelligent and deeply witty Laugh knowingly even if you don't understand a word

A devised play A total mess

Domestic drama Doesn't mention Iraq or the state of the NHS

Post-conceptualist An artist who had an idea once, but wore it out

Bookish Wears glasses and once read a Penguin Classic

This promising young actor I want to sleep with him/her

This magnetic and superbly charismatic actor, whose early promise has been richly achieved I have slept with him/her

Ontem puseram-me a Pena Capital no sapatinho e foi Natal em Abril na Coventry Street*

*
shafftsbury avenue

Vi um anão inglês e fiquei perturbado
desceu-me a chávena ao peito como quem sofre
julgava ter olhos para tudo e não os tive para isto
um anão inglês a atravessar uma rua inglesa
com um fato à inglesa muito curto
e a mãozinha inglesa a dar a dar

Eu que ainda ontem escrevi um poema
sobre os tamanhos fantasmas dos ingleses
as pernas de oceano dos ingleses
os braços florestais dos ingleses
dei um salto para o chão e entornei a bebida sobre o pedinte
que afinal também há nas casas de chá barato

"Dwarf! Dwarf! burning bright"
"In the forest of the night"

Que nome lhe darão na intimidade?
Vic? Jimmy? Christian Dwarf Road?
Deixá-lo-ão sair para o estrangeiro sem ser de circo?
Quem já viu um anão inglês em Sintra?
Mérida?
Ferrara?
Quem apertou o sexo aos ingleses
e lhes pôs estas caras de infinito langor
apertou também a ti?

"Did He smile His worke to see?"
"Did He who made the Lamb make thee?"

Claro que isto são maneiras

Não vivo como o outro, preso pela espinha
aos caudais da verdade.
De um lado Buckingham Palace
do outro o caso do
profundamente humano.
E seria inglês, este anão?

Não seria italiano?

*
Mário Cesariny
in Pena Capital

* O que eu chorei a rir sozinha ontem no metro (curiosamente depois de vir de Shaftesbury Avenue) ao ler isto. Na memória um (dwarf) ensaio do há.que.dizê.lo a propósito do Cavaleiro Andante, espectáculo apresentado no Museu do Teatro no âmbito do MOSTRA-TE. Posto isto, chego a casa para descobrir que a segunda parte do projecto Cesariny vai dar a cara na Casa Conveniente.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Brainstorm num copo de água*

eu: Mas porque é que ela está ali?
ele: Ela está ali... Enfim... Porque é que não havia de estar?
eu: Ok, estava ali como nós estamos sempre em algum lado.
ele: Sim, é verdade que estamos geralmente nalgum lado.

*ou O nonsense do processo de criação a quatro mãos.